Ontem anoite tive a oportunidade de assistir o programa "A Liga", exibido pela Band, que abordou sobre o tema da Liberdade Individual. Dentro desse tema exploraram sobre os seguintes sub-temas: União homo-afetiva; Adoção de filhos por casais homossexuais; Legalização da maconha e a Legalização do aborto.O programa tem a presença de quatro jornalistas (um deles é o Rafinha do CQC) que percorrem o Brasil à procura de pessoas e estórias que servem de exemplo para o tema do dia.
Neste programa, recolheram depoimentos de pessoas nas praias, em bares e também de médicos, especialistas e políticos. Dentre os depoimentos de algumas pessoas, eu confesso que fiquei perplexa com o que ouvi. São falas baseadas em frases que escutamos por aí, e que na minha opinião, não são baseadas em nada. Ou melhor, baseadas no que o povo ouve do povo, ou seja, argumentos retrógados, sem fundamento, sem informação, e o pior, recheados de preconceito e visão limitada que não condiz com a nossa atualidade.
Ouvi coisas do tipo: "Mas se um casal de gay adotar uma criança quem vai ser o pai e quem vai ser a mãe?...a criança vai ficar confusa". Ora!!! Se um casal de gays adotar um filho, este terá DOIS PAIS e não um pai e uma mãe! Que coisa absurda de se ouvir em plena rede nacional! Quando há um casal de gays, por exemplo, eles não querem ser mulheres, e não são. Eles são homens que desejam outros homens. O mesmo ocorre com um casal de mulheres. Ambas são mulheres, e se adotarem um filho as duas serão mães da criança.
Mas aí vem o famoso fragmento que diz: "Mas a criança precisa de ter referência de homem e mulher na sua criação e em caso de casais homossexuais isso vai faltar". Meu Deus! É verdade que uma criança precisa ter referências do que é um homem e do que é uma mulher para o seu desenvolvimento, isso é muito importante. Mas essa vivência não se dá somente em casa, a criança se relaciona com o tio, o avô, o primo, o dono da padaria, com o pai do seu coleguinha, enfim, as referências são múltiplas. Freud diz que é necessário inserir a Lei na relação edipiana. Essa lei é transmitida, sobretudo, pelo pai, mas na verdade ela pode ser inserida por qualquer um. Numa relação com os filhos, um do casal pode exercer o papel da Lei e fazer o corte necessário entre a criança e o que assume a função materna. Percebam, eu falei função materna e não Mãe...essa é a grande diferença.
Outra fala que me deixou atônita foi de um brasileiro que disse: "Se permitirmos a união de homossexuais em todo lugar o que vou dizer para meu filho sobre dois homens se beijando na frente dele?" Meu caro amigo, você vai dizer ao seu filho que são dois homens se beijando. Que no mundo todo tem homem que gosta de beijar mulheres, mas também têm homens que gostam de beijar homens. E que a vida é assim. Quanto mais casais do mesmo sexo forem vistos se beijando, mais familiarizado nós vamos ficando com o fato, mas para isso acontecer é preciso começar.
Outros depoimentos sobre a legalização do aborto também me assustaram, tanto positiva quanto negativamente. As falas são àquelas que já conhecemos; têm pessoas que absorvem a ideia de que abortar é simplesmente matar criancinhas e que isso é um crime imperdoável. As pessoas esquecem de refletir sobre a decisão da mulher em ter um filho ou não; esquecem das condições precárias e desumanas que elas abortam no Brasil; esquecem também de falar da culpa que as mães podem ter por cometer um aborto em um país onde isso é visto como crime, ademais esquecem que milhões de mulheres morrem porque abortam de qualquer jeito, em qualquer lugar e penetram vários objetos para poder matar o feto. As pessoas que aprovam a legalização do aborto defendem a ideia de que a mulher possa ter a decisão de querer ou não ter um filho. E que isso seja feito de maneira adequada, em lugar próprio e do modo certo...sem culpa ou medo de serem pegas porque o Estado não as apóia. Além disso, a defesa é também para que haja um planejamento familiar, formação e informação às mulheres e jovens do Brasil sobre os métodos contraceptivos, sobre os seus direitos, etc.
Mas um depoimento que me deixou pasma, positivamente, foi uma ONG de mulheres católicas que são a favor da legalização do aborto. É isso mesmo. Elas criaram essa instituição porque reconheceram que o argumento da Igreja perante a sexualidade era atrasado e não condizia com a realidade. Fantástico isso! Perceberam que atualmente a condição das mulheres era outra e que podiam ter a escolha de fazer um aborto, se assim fosse conveniente. Surpreendente como têm pessoas que mesmo religiosas conseguem enxergar além do que é imposto pela grande instituição que é a Igreja católica.
Finalmente, a legalização da maconha. Não podemos tapar o sol com a peneira e esquecer que há, no Brasil, milhares de usuários de maconha. São nossos amigos, companheiros, familiares e filhos que fumam um baseado quase que diariamente, se não todos os dias. É uma planta com poder psicoativo e que causa uma dependência psicológica. Têm como efeitos a sonolência, ou um estado de relaxamento, o apaziguamento da ansiedade, a abertura do apetite e até depressão em usuários veteranos, etc. Mas também tem efeitos medicinais como em casos de anorexia (onde o indivíduo evita comer), em casos de portadores de HIV que percebem que sua ansiedade é diminuída por causa do uso da maconha e com isso a carga viral pode ser equilibrada, sem aumentos.
Mas o que eu acho mais importante com a legalização da maconha é que o uso poderá ser liberado para os usuários sem que isso seja uma ofensa a sociedade e ao Estado. Os compradores poderão adquirir a erva legalmente sem o acesso aos traficantes; poderão comprar em cafeterias, bares, de uma forma mais digna. E se "seu filho" ver uma pessoa fumando um baseado na rua, assim como vê tomando uma cerveja ou fumando um cigarro o argumento poderá ser o mesmo: " Existem pessoas que gostam de fumar um cigarro de maconha e isso aqui no Brasil é permitido". As informações dadas aos nosso pequeninos devem ser verdadeiras, claras e sem falso moralismo.
Bem, o que pude concluir com o programa de ontem - A Liga - é que é necessário ainda muita informação, formação e educação antes desses temas irem ao plenário. É preciso uma discussão mundial para a legalização da maconha. É preciso abonar o preconceito podre que cerca a cabeça de muitos brasileiros. A falta de informação, interesse, questionamento e reflexão ainda são bastante perceptíveis.
O ex Big Brother Jean, que hoje é deputado, apareceu dando sua visão sobre esses assuntos. É um homem muito interessante do ponto de vista profissional. Com argumentos sólidos, visão ampla, inteligente. Adorei ouvi-lo, embora eu não goste nenhum pouco de reality shows, eu tenho que reconhecer que o Jean é um ex Big Brother que pensa e que está antenado com as demandas do mundo.
Não é de se estranhar que os países desenvolvidos são os que mais têm a legalização do aborto, da maconha e da união homo-afetiva. O próprio nome já diz (desenvolvido) e para nós, brasileiros, chegarmos lá é preciso ainda uma boa estrada.
Este blog nasceu com a ideia de divulgar textos em psicologia, propiciar discussões, fornecer meios para consulta e favorecer um espaço para escrever e me mostrar como amante da Psicologia e Psicanálise. Bem-vindos ao Acena!
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
O (im)possível encontro a dois
Este tema da relação entre um homem e uma mulher inspiram muitos textos, livros e análises; a ver o famoso "Homens são de marte e mulheres são de vênus" de John Gray. São muitos os autores que arriscam uma opinião ou visão a respeito. Eu farei aqui uma leitura psicanalítica baseado no texto de Cristine Olivier, psicanalista francesa, intitulado "O impossível encontro".
A autora aborda a relação de um homem e uma mulher, como casal, apoiado na vivência que ambos tiveram com sua mãe. Desta maneira, é possível inferir que há diferenças na maneira como esta vai lidar com o filho e com a filha. Será diferente também, o modo como os filhos irão estabelecer sua relação com o parceiro amoroso, isto é, o homem e a mulher buscam coisas diferentes. Olivier descreve a "demanda oral" da mulher e o "medo anal" do homem.
Segundo Freud, quando o bebê nasce ele mantém com sua mãe uma relação quase simbiótica; ambos são quase uma pessoa só. O bebê é tudo para sua progenitora e esta é tudo o que ele precisa para sobreviver, sendo esta relação completa e perfeita. Cristine Olivier vai dizer que "amar é o desejo de uma única identidade levada ao extremo, é a irrupção violenta do fantasma primitivo de unidade com a Mãe". Passamos então a procurar alguém que vá nos completar como a mãe nos completou. Entretanto, o homem busca uma mulher que não o sufoque, enquanto ela quer um homem que a deseje. Isso acontece pelo medo que ele tem de novamente ter o seu desejo interrompido (pelo Complexo de Édipo); já a mulher teme não ser suficientemente amada e desejada. Assim, se instalam as demandas do amor adulto.
A mulher procura um homem que lhe queira e deseje para que desse modo ela possa ser o objeto desejante dele, pois não foi assim para sua mãe. Com esta teve uma relação de amor, mas não de objeto de desejo. A mulher terá então, como demanda de amor, essa busca infindável daquilo que não teve: o desejo de sua mãe. Por conta disso ela quer ser amada e desejada. Já o homem teve uma relação de amor e desejo com sua mãe, pois ele tem o que ela deseja. Assim, o seu grande medo ronda por ser dependente, submisso e de não ter autonomia em relação a sua companheira. Em outras palavras, teme ocupar o mesmo lugar que muitas mulheres ocupam em nossa cultura. O homem receia também que a mulher o supere, que ocupe um lugar de autonomia, ou seja, teme do perigo que ela pode representar a ele. Prefere não demonstrar seus sentimentos, ser dominador, e "chefe da casa". A busca dele se resume em ser livre (para manter o controle) e seu medo transita pela impossibilidade de não conseguir o êxito (e a mulher ocupar este lugar).
É impossível então que homens e mulheres possam se encontrar? Suas demandas de amor são opostas e por isso inviáveis e destinadas a solidão? Cristine Olivier vai nos mostrar que não, felizmente. Qual seria o possível encontro, então?
Se a mulher busca o aconchego e o homem a liberdade, o que fazer para que isso não seja um impedimento, mas sim uma união? Uma possibilidade pode ser abrir mão da perfeição que ambos procuram. Cada um deve ver o outro não como seu obstáculo, mas como uma possibilidade para o gozo. Desta maneira, tanto o homem como a mulher sairão de sua posição de sujeito barrado e de não-desejo da mãe. A mulher poderá querer ser desejada, mas sem se submeter à norma do outro. E o homem poderá se desprender do medo de não ser autônomo e livre. Esta seria uma possibilidade para o amor dar certo. Conciliar as diferenças, permitir o amor do outro, interagirem entre si, superar as dificuldades que se tem com o outro e aceitar que a perfeição não existe. Esse pode ser um caminho para viver o amor.
Olivier escreve: "É preciso conseguir reprimir suficientemente o negativo da nossa história e fantasiar o positivo de que necessitamos para alcançar a fusão ideal de corpos, a tão sonhada simbiose". Quem sabe assim se dê o possível encontro?
A autora aborda a relação de um homem e uma mulher, como casal, apoiado na vivência que ambos tiveram com sua mãe. Desta maneira, é possível inferir que há diferenças na maneira como esta vai lidar com o filho e com a filha. Será diferente também, o modo como os filhos irão estabelecer sua relação com o parceiro amoroso, isto é, o homem e a mulher buscam coisas diferentes. Olivier descreve a "demanda oral" da mulher e o "medo anal" do homem.
Segundo Freud, quando o bebê nasce ele mantém com sua mãe uma relação quase simbiótica; ambos são quase uma pessoa só. O bebê é tudo para sua progenitora e esta é tudo o que ele precisa para sobreviver, sendo esta relação completa e perfeita. Cristine Olivier vai dizer que "amar é o desejo de uma única identidade levada ao extremo, é a irrupção violenta do fantasma primitivo de unidade com a Mãe". Passamos então a procurar alguém que vá nos completar como a mãe nos completou. Entretanto, o homem busca uma mulher que não o sufoque, enquanto ela quer um homem que a deseje. Isso acontece pelo medo que ele tem de novamente ter o seu desejo interrompido (pelo Complexo de Édipo); já a mulher teme não ser suficientemente amada e desejada. Assim, se instalam as demandas do amor adulto.
A mulher procura um homem que lhe queira e deseje para que desse modo ela possa ser o objeto desejante dele, pois não foi assim para sua mãe. Com esta teve uma relação de amor, mas não de objeto de desejo. A mulher terá então, como demanda de amor, essa busca infindável daquilo que não teve: o desejo de sua mãe. Por conta disso ela quer ser amada e desejada. Já o homem teve uma relação de amor e desejo com sua mãe, pois ele tem o que ela deseja. Assim, o seu grande medo ronda por ser dependente, submisso e de não ter autonomia em relação a sua companheira. Em outras palavras, teme ocupar o mesmo lugar que muitas mulheres ocupam em nossa cultura. O homem receia também que a mulher o supere, que ocupe um lugar de autonomia, ou seja, teme do perigo que ela pode representar a ele. Prefere não demonstrar seus sentimentos, ser dominador, e "chefe da casa". A busca dele se resume em ser livre (para manter o controle) e seu medo transita pela impossibilidade de não conseguir o êxito (e a mulher ocupar este lugar).
É impossível então que homens e mulheres possam se encontrar? Suas demandas de amor são opostas e por isso inviáveis e destinadas a solidão? Cristine Olivier vai nos mostrar que não, felizmente. Qual seria o possível encontro, então?
Se a mulher busca o aconchego e o homem a liberdade, o que fazer para que isso não seja um impedimento, mas sim uma união? Uma possibilidade pode ser abrir mão da perfeição que ambos procuram. Cada um deve ver o outro não como seu obstáculo, mas como uma possibilidade para o gozo. Desta maneira, tanto o homem como a mulher sairão de sua posição de sujeito barrado e de não-desejo da mãe. A mulher poderá querer ser desejada, mas sem se submeter à norma do outro. E o homem poderá se desprender do medo de não ser autônomo e livre. Esta seria uma possibilidade para o amor dar certo. Conciliar as diferenças, permitir o amor do outro, interagirem entre si, superar as dificuldades que se tem com o outro e aceitar que a perfeição não existe. Esse pode ser um caminho para viver o amor.
Olivier escreve: "É preciso conseguir reprimir suficientemente o negativo da nossa história e fantasiar o positivo de que necessitamos para alcançar a fusão ideal de corpos, a tão sonhada simbiose". Quem sabe assim se dê o possível encontro?
sexta-feira, 20 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Reflexões a respeito do tema "gênero"
A palavra gênero é de origem inglesa (gender) que quer dizer uma construção social, cultural e com atribuições simbólicas, isto é, uma mera representação do que seria relativo a mulheres e homens. O que conhecemos como feminino e masculino é construção de um produto social apreendido e institucionalizado. A partir do sexo advém as definições que designarão as tarefas e condutas ditas "femininas" e "masculinas". Enquanto gênero é um modo de ser educado e de ser no mundo, o sexo é a definição biológica e anatômica de um indivíduo. Neste caso, são os órgãos internos e externos, cromossomos e hormônios que são indiscutivelmente distintos entre homens e as mulheres.
É preciso compreender que o fisiológico/biológico não é suficiente para determinar o ser como mulher ou homem, pois o gênero possui elementos que vão muito além da anatomia do sujeito. Em outras palavras, não há coincidência entre anatomia e identidade de gênero. (Gebara, 2000).
Gênero aponta, também, a relação de poder de um sexo para outro, ou seja, há uma nítida determinação das funções e dos papéis a serem exercidos por ambos os sexos. São estabelecidos desde o nascimento do bebê as práticas que lhes competirão. Segundo a determinação de gênero, por exemplo, as meninas são ensinadas a serem doces, frágeis e recatadas enquanto os meninos fortes, agressivos e poderosos. Embora estes papéis estejam saindo de cena, ainda é um estereótipo em nossa cultura patriarcal.
Na relação de poder os prestígios são embutidos nas funções em que homens e mulheres irão assumir. Ocorre um jogo de oposições e as atividades estabelecidas por ambos os sexos são simbólicas e estão presentes em todas as culturas.
Já que gênero é uma construção social e um modo de ser no mundo, sendo o sujeito homem ou mulher, devemos pensar o que é que estamos fazendo dessa construção e, sobretudo, se estamos reproduzindo esta relação de poder. Pois, quando pensamos que a posição da mulher é desprivilegiada e estigmatizada precisamos considerar que esses pensamentos são caricaturados, compartilhados e, muitos vezes, aceitos por nós. Mudam-se as condutas pelo processo educacional.
A masculinidade é vista como potente, independente e dominante. A feminilidade, por sua vez, é a representação do submisso, insegura e fraco. As noções de ativo e passivo também se relacionam com o masculino e feminino, respectivamente. O homem é educado para ser livre, não demosntrar suas emoções, ser promíscuo, soberano e a mulher, o inverso.
Gênero é, portanto, a dimensão simbólica e cultural que desempenha nas relações de poder entre homens e mulheres. Dizer que é fisiologicamente mulher não permite concluir que a identidade de gênro seja feminina. E da mesma maneira ocorre com os homens. A expressão de gênero é o que se vê, o que é expresso e transmitido para as pessoas como o jeito de vestir, corte do cabelo, comportamentos e características corporais. Essa expressão do gênero, muitas vezes, não coincide com a anatomia do sujeito, como são os casos dos travestis, transexuais, transformistas, drag queens e muitos homossexuais.
Não podemos delimitar regras nem apontar nenhum grau de anormalidade, doença ou algo parecido, nesses exemplos citados anteriormente, visto que a sexualidade dos indivíduos é múltipla, plástica e flexível, com todas as dores, encontros, desencontros e alegrias que se possa imaginar. E quanto as "funções" pré-determinadas para os sexos masculino e feminino, não passam de representações de cada cultura. Ainda bem que todo esse cenário está modificando! Mesmo assim, é necessário rever nossos conceitos e condutas.
É preciso compreender que o fisiológico/biológico não é suficiente para determinar o ser como mulher ou homem, pois o gênero possui elementos que vão muito além da anatomia do sujeito. Em outras palavras, não há coincidência entre anatomia e identidade de gênero. (Gebara, 2000).
Gênero aponta, também, a relação de poder de um sexo para outro, ou seja, há uma nítida determinação das funções e dos papéis a serem exercidos por ambos os sexos. São estabelecidos desde o nascimento do bebê as práticas que lhes competirão. Segundo a determinação de gênero, por exemplo, as meninas são ensinadas a serem doces, frágeis e recatadas enquanto os meninos fortes, agressivos e poderosos. Embora estes papéis estejam saindo de cena, ainda é um estereótipo em nossa cultura patriarcal.
Na relação de poder os prestígios são embutidos nas funções em que homens e mulheres irão assumir. Ocorre um jogo de oposições e as atividades estabelecidas por ambos os sexos são simbólicas e estão presentes em todas as culturas.
Já que gênero é uma construção social e um modo de ser no mundo, sendo o sujeito homem ou mulher, devemos pensar o que é que estamos fazendo dessa construção e, sobretudo, se estamos reproduzindo esta relação de poder. Pois, quando pensamos que a posição da mulher é desprivilegiada e estigmatizada precisamos considerar que esses pensamentos são caricaturados, compartilhados e, muitos vezes, aceitos por nós. Mudam-se as condutas pelo processo educacional.
A masculinidade é vista como potente, independente e dominante. A feminilidade, por sua vez, é a representação do submisso, insegura e fraco. As noções de ativo e passivo também se relacionam com o masculino e feminino, respectivamente. O homem é educado para ser livre, não demosntrar suas emoções, ser promíscuo, soberano e a mulher, o inverso.
Gênero é, portanto, a dimensão simbólica e cultural que desempenha nas relações de poder entre homens e mulheres. Dizer que é fisiologicamente mulher não permite concluir que a identidade de gênro seja feminina. E da mesma maneira ocorre com os homens. A expressão de gênero é o que se vê, o que é expresso e transmitido para as pessoas como o jeito de vestir, corte do cabelo, comportamentos e características corporais. Essa expressão do gênero, muitas vezes, não coincide com a anatomia do sujeito, como são os casos dos travestis, transexuais, transformistas, drag queens e muitos homossexuais.
Não podemos delimitar regras nem apontar nenhum grau de anormalidade, doença ou algo parecido, nesses exemplos citados anteriormente, visto que a sexualidade dos indivíduos é múltipla, plástica e flexível, com todas as dores, encontros, desencontros e alegrias que se possa imaginar. E quanto as "funções" pré-determinadas para os sexos masculino e feminino, não passam de representações de cada cultura. Ainda bem que todo esse cenário está modificando! Mesmo assim, é necessário rever nossos conceitos e condutas.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
A função do pai em psicanálise
Segundo a psicanálise, o pai tem uma função na relação edipiana. Ele terá uma grande importância para a tríade pai-mãe-filho ocupando um lugar tanto para a criança como para a mãe.
Sabe-se que não é preciso que haja um homem para que haja um pai e nem precisa assumir essa função o mesmo homem que contribuiu na concepção da criança, mas sim alguém ou algo que assuma essa função. A função paterna, de acordo com a psicanálise, trata-se de algo que vá castrar a mãe com seu filho, isto é, algo que mostre a ambos sua impossibilidade de se completarem. O filho não é o falo da mãe e ela não pode tê-lo como seu falo. Esse desejo de completude e perfeição um tanto utópico entre mãe-filho deverá ser interrompido pelo Pai, quem vai castrar ambos. Sem o “nome-do-pai” instaurado o filho se tornará objeto de desejo da mãe e não um sujeito.
A psicanálise dirá da diferença do homem e do pai. O primeiro terá que se aceitar como um ser de falta, castrado e sem o falo. Já o pai é o inverso, ele terá de provar que tem o falo, que é um super-herói, não castrado. O pai precisa dar conta da demanda da mãe e será a visão de um pai que “pode tudo” que o filho incorporará. O pai terá um lugar no desejo da mãe, enquanto que o homem, por ser desprovido, não terá.
Na relação edipiana há um pai real, um imaginário e um simbólico. O Pai sendo uma metáfora, e ll m na relaçra por ser desprovido, n e sem o falo. em.sué um estranho na relação dual mãe-filho. O Pai real será aquele que não precisará fazer esforço para o filho percebê-lo como um intruso e alvo do desejo de sua mãe.
A relação do pai e da criança será conflituosa. Isso porque ele funcionará como um pai privador, interditor e frustrador, devido sua relação com a mãe. Se a criança quer ter o desejo da mãe e ela quer tê-lo como objeto de seu desejo, somente o pai ou quem assume essa função para interditar essa relação incestuosa e proibida. É na qualidade de pai imaginário que a criança vai percebê-lo no papel de interditor de sua relação com a mãe. No investimento psíquico da criança, o pai será o que a privou de ser o objeto do desejo materno, e assim, a criança o terá como um pai frustrador. Este será o objeto de desejo da mãe no lugar do filho. O pai será o objeto de desejo da mãe e esta será o objeto do pai. É ele quem tem a permissão de se deitar sexualmente com ela. O filho deixa de ser o objeto de desejo da mãe para ser sujeito da relação mãe-pai. Isso acontece quando a mãe realmente deposita o seu desejo em outro lugar.
O pai simbólico será aquele que tem o falo, isto é, quem terá a causa do desejo materno ou o objeto fundamental do desejo da mãe. É pelo Nome-do-Pai que a criança poderá entender que é o pai quem ocupa o lugar de desejo da mãe, além disso é pelo NP que se instaura o simbólico no psíquico. Desta maneira, o filho testemunhará o seu estatuto de Sujeito. A partir de sua falta surgirá o sujeito desejante do qual se submeteu à castração imposta pelo pai.
Para finalizar, o pai é quem instaura o simbólico na criança, uma vez que é ele quem vai colocá-la como sujeito de falta e, portanto, de desejo. O pai tem a função de mostrar para o filho como procurar, escolher e colocar o outro como causa do seu desejo. O pai irá oferecer ao filho um modelo de falo nos mesmos moldes que ele tem. No entanto, não o mesmo, mas sim um outro modelo de falo.
A feminilidade em psicanálise
De acordo com a biologia, feminino e masculino se definem pelas características sexuais primárias e secundárias, que são os órgãos externos e internos. Já para a psicanálise, feminino e masculino vai além da anatomia e contém aspectos mais profundos que explicam os comportamentos psíquicos.
Para Freud, a feminilidade é revelada quando a criança do sexo feminino conseguiu, pelo menos parcialmente, realizar sua mudança de zona erógena, ou seja, do clitóris para a vagina e de objeto de amor (da mãe para o pai). E espera-se que no curso normal do desenvolvimento ela haverá de passar desse objeto paterno para sua escolha objetal definitiva.
Segundo Freud, a menina ainda quando criança nota o pênis de um irmão ou do próprio pai e, imediatamente, se identifica com um correspondente imperceptível e infinitamente menor em seu corpo. A partir de então, a menina se torna invejosa do pênis. Ela o viu, sabe que não tem e deseja tê-lo. Está aí instaurada a falta e o desejo de ter o que não se tem. Nesse momento, está presente a castração na menina, isto é, quando ela descobre a ausência do pênis na mãe e conseqüentemente, em si mesma.
Freud constatou em análise que as meninas responsabilizam sua mãe pela falta do pênis nelas e não perdoam por terem sido, desse modo, colocadas em desvantagem. O desejo que leva menina a volta-se para seu pai é, sem dúvida, originalmente o desejo de possuir o pênis que a mãe lhe recusou e que agora espera obter de seu pai. No entanto, a situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for substituído pelo desejo de um bebê, isto é, se um bebê assume o lugar do pênis. Dessa maneira, ocorre uma primitiva equivalência simbólica.
Enquanto a menina se inveja de um pênis que ela não tem, o menino ao perceber que a mãe também não tem, se vê numa situação de perda eminente desse pênis, melhor dizendo, na ameaça da castração.
Assim, o menino por ter um pênis, consegue simbolizar algo que é da ordem do ter; Lacan vai chamar isso de falo. Já a menina será representada pela falta, em outras palavras, não há um representante simbólico do qual ela possa se identificar, como no caso do menino. Dessa maneira, falta à mulher algo que se insira no registro do simbólico, sendo ela o ser da negação. Dito de outro modo, a ausência do falo é a definição de mulher, segundo Lacan. Não há nada que a define, já que ela não possui o falo. É diante desse vazio estrutural, dessa falta inconsciente que a mulher pode demanda e desejar.
Feminilidade em psicanálise tem uma condição de ser desejante, e isso só poderá acontecer se à mulher falta. Só se pode desejar àquilo que falta. Se ela encontrar algo que a preencha, irá construir outro objeto para o seu desejo. Uma mulher pode até desejar, mas, além disso, ela deseja ocupar uma posição de ser causa do desejo do outro. Àquilo que a ela faltou na infância e que a definiu como mulher, ela vem agora tentar resgatar. Será uma busca infindável daquilo que lhe falta: o falo.
A posição tipicamente feminina de desejar e ser causa do desejo vai até a adultez e também pode ser percebida nas relações amorosas das quais a mulher se submete. Querer um homem que a deseje, que a complete e que a ame como única são características do querer da mulher, da feminilidade. Desejar ser única para o amor de um homem surge a partir da falta. É a partir dela que a mulher pode sustentar querer ser o objeto de desejo do outro, ou seja, causa do desejo de um homem.
André (1987) vai dizer que a posição feminina consiste em ser não-toda sujeito. Não-toda sujeito significa que uma mulher é não-toda determinada por seu inconsciente. Dizendo de outra forma, é a partir da falta do significante que se define a mulher.
É desse lugar de querer ser a causa do desejo do outro sustentado pela falta, que a mulher provoca o desejo do seu parceiro para que ele possa lhe dar àquilo que a ela falta. No movimento de desejar o que falta à mulher, ela ocupa uma posição que é, por excelência, feminina.
Aprendizagem e subjetividade
“No fundo nem somos só o que herdamos nem apenas o que adquirimos, mas a relação dinâmica, processual do que herdamos e do que adquirimos”. (Freire, s/d, p.93)
A aprendizagem é a capacidade de mudar determinado comportamento mediante a experiência vivida. Para que isso seja possível, o sujeito necessita maturar seus neurônios através do processo de mielinização que se dá desde que o bebê nasce. O processo de aprendizagem depende de uma bagagem neuronal (estrutura dos neurônios), relacional (é preciso do “olhar” do outro) e social (da cultura em que estamos inseridos).
Qualquer sujeito é capaz de aprender, no entanto, sem a memória o aprendizado não se consolida, pois é preciso guardar as idéias. Por outro lado, não absorvemos tudo que nos é apresentado, há uma filtragem do que vai para nossa memória. Memorizamos o que é importante e subjetivamente relevante, mas também esquecemos ou porque nos causa dor psíquica ou porque o acúmulo de informações provoca estresse psíquico.
A subjetividade é construída na organização social, histórica e cultural nas quais os indivíduos estão inseridos, em outras palavras, no “comigo mesmo”, com o outro, num tempo e num espaço social específicos. Ela existe em sujeitos reais e concretos numa dada organização que eles têm com seu meio externo.
A realidade é subjetivada pela relação eu x mundo, que determinam as significações. O sujeito, a partir das elaborações e transformações dessas significações e de acordo com suas experiências pessoais, cria um sentido que passarão a fazer parte do seu pensar cotidiano. Os indivíduos apropriam-se da realidade advinda do meio externo.
A aprendizagem está diretamente ligada à forma como o sujeito elabora suas vivências, isto é, se há dificuldades e problemas na “digestão” das questões que provocam incômodos e desarranjos, ele provavelmente apresentará bloqueios para aprender. Pois, precisamos estar bem alimentados, tranqüilos e saudáveis para aprender, sem contar no depósito afetivo que fazem em nós.
O processo de aprendizagem é dinâmico, ou seja, necessita da estrutura neurológica e da nossa subjetividade e também de como nós somos estimulados e treinados pelo meio social. Em outras palavras, o “olhar” que o outro nos vê mais a bagagem subjetiva que vamos adquirindo ao longo das experiências vividas.
A aprendizagem não é algo simples, muito menos mecânico, pois assimilamos aquilo que conseguimos apropriar da cultura em conjunto com o aparato interno que é subjetivo.
Portanto, somos sujeitos que aprendemos a partir do que nos é oferecido socialmente, e conseguimos assimilar as significações daquilo que subjetivamente conhecemos da nossa experiência. É esta relação que nos permite conhecer, produzir, entender, compartilhar, enfim, aprender.
Sobre o amor, a vida e a solidão: uma leitura psicanalítica, filosófica e poética
Aqui estou eu, sentada à frente do computador, escrevendo sobre o amor, sobre a vida e sobre a solidão. Assuntos intrigantes e cheios de poesia. Nessa viagem tentarei refletir um pouco sobre eles.
Começo com o amor, por ser para mim o sentimento mais cheio de vida, de brilho e de esperança. Como ser feliz sem ter a presença dele? (Ater-me-ei aqui no amor entre dois indivíduos). O amor é para mim a junção de vários outros sentimentos como o respeito, a dedicação, a admiração, o carinho, o companheirismo, a confiança, a sinceridade, a lealdade, a atenção e também o desejo sexual.
Para viver uma relação a dois, esses sentimentos precisam estar harmônicos, isto é, atento às próprias demandas, bem como às demandas do outro. Respeitar o espaço alheio e também não se perder no outro. Ainda, se colocar em um lugar de sujeito e também aceitar o parceiro (a) como tal. Ambos terão vontades, desejos, anseios, dúvidas que, presentes numa relação saudável, poderão fazer trocas.
A incompletude é inerente àquele que falta. Falta qualquer coisa ou um monte de coisas que nos impeça de sermos completos. No entanto, é a partir dessa falta que podemos desejar; desejar o que quiser, sempre conscientes que a totalidade é impossível. Assim, a expectativa nos poupa um pouco das frustrações. Tornamos mais doces no querer e mais compreensíveis com as perdas.
Lacan diz que: Amar é supor, minimamente, que o outro tenha algo para me dar que eu não tenho, mas que desejo e valorizo. Trocando em miúdos, se a mim falta alguma coisa, então eu amo o que está presente no outro. Por outro lado, no parceiro (a) também há falta. Ele é incompleto e cheio de desejo. Nunca seremos completos um para o outro porque a nós tem muito a ser preenchido. Buscar no amor a completude (que é esperar que o outro me dê tudo que eu não tenho) é destinar-se ao fracasso. Mas, sempre temos expectativa de receber do outro. Caso contrário, não ficaríamos apaixonados.
Afinal, que sentimento é esse que “me queima por dentro” “que brota à flor da pele” “que me aperta o peito e me faz confessar... o que não tem vergonha, juízo, nem nunca terá”? Difícil responder essa pergunta, mas vou arriscar. Amar é ter do outro o que ele pode me dar, com seus limites, dores, medos, desprendimento, vontade. Então, amam-se quando recebemos um pouco do outro? Talvez sim. Bem como poder doar-se para o outro. O que não quer dizer apenas bons sentimentos, infelizmente. Mas, se é dado alguma coisa que para o outro falta, então é possível amar. Às vezes é por isso que amamos quem não é tão bonito, ou tão esbelto, ou tão carinhoso, mas certamente têm vários outros fatores que compensam as lacunas das impressões iniciais. Haverá um tanto de percepções que captamos do mundo do outro que irão rechear o nosso mundo vazio e incompleto, de acordo, é claro, com o que queremos, optamos, pretendemos, supomos, etc.
Pode-se pensar então, de uma maneira rude, que o amor é revelado por meio de interesses mútuos. Ambos doam o que podem e recebem o que querem. Está feito o pacto. A escolha do parceiro amoroso jamais é feita em vão e mais, inocente e inconscientemente. O que não impede que essa escolha seja feita com afeto, poesia e charme.
“Mas e a vida? E a vida o que é, diga lá meu irmão?” Estamos entregues ao mundo, completamente ingênuos e desprovidos de qualquer responsabilidade. Somos um ser miúdo que acaba de nascer. Daí, recebemos um nome e uma família que nos dirige atenção e nos proclama a vida. É necessário que tenha alguém que deposite em nós um olhar que autorize a existência. Que nos ensine valores, ajustamentos, disciplinas, sentimentos, comportamentos, enfim, que nos ensine a viver. Será que isso é aprendido? Ora, o que carregamos é repleto do que foi vivenciado, aprendido e percebido. Olhamos a vida com um olhar que foi ensinado, ou melhor, com o que foi aprendido. A maneira que percebemos a vida é única, de acordo com o que foi absorvido ao longo do caminho.
A vida é real. E somos nós que orientamos para uma direção de acordo com o que essa vida representa para cada um. Uma vida cujos aprendizados se deram por meio de dores e mágoas serão escolhas referidas nesses sentimentos. Já uma vida que teve como base o aprendizado através da serenidade e confiança, certamente as escolhas serão mais fáceis e suaves.
Impossível falar da vida sem abordar a morte. Aquela começa e concomitantemente inicia a morte. Um dia a mais de vida é um dia mais próximo da morte. A vida é a negação da morte. Em outras palavras, viver é não deixar de ter esperança, é não deixar de sonhar, é não deixar de perceber a beleza do mundo, é não deixar de permanecer com um brilho nos olhos.
Com mil afazeres da pós-modernidade, com as decepções que temos, com os desencontros que nos acometem, com as responsabilidades que assumimos e metas que devemos atingir, deixamos que o colorido da vida, acinzente. Não deixamos de viver por isso, mas nos aproximamos da escuridão da morte. A vida exige recriação, experimentação e motivação. Essas palavras trazem em si a própria essência da vida que: é um eterno recomeçar, são possibilidades, são expectativas e um distanciamento considerável de algum grau de desistência. Viver não permite que desistamos. Ao contrário, é sempre um convite para realizar. Diferente da morte que é a falta de esperança, de um “vir-a-ser”. A morte é a falta de vida. Ou, a morte é não-vida.
Mesmo que vivamos em caminhos tortuosos, cheios de dúvidas, medos e incertezas a vida, aí, está presente. O que digo é que nessas improbabilidades o acaso se faz presente. A incerteza nada mais é que a presença de qualquer possibilidade. Se há incertezas, então há vida porque há possibilidades. E são nessas infinitas possibilidades que precisamos fazer escolhas. Isso nem sempre é confortável, pois, escolher implica em abrir mão de outra oferta. Dizem os psicanalistas, é impossível ter tudo e ser todo. A iminência da escolha direciona ao descarte de outra possibilidade que resulta em desconforto e angústia. É impossível dizer se a escolha que fizemos foi a mais correta ou a mais adequada. Mais uma vez não há garantia nenhuma. Mas, quem disse que viver é garantido?
Já que não temos garantia nenhuma, nem certeza de nada, só nos resta viver. Ir atrás de sonhos, apanhar possibilidade, recomeçar, escolher o que nos parece mais agradável, se apropriar do que nos faz bem. Se aparentemente as coisas não têm sentido nenhum, logo podemos aplacar a elas o sentido que bem quisermos. Inclusive, ouso a dizer que, viver é deixar que a vida ainda faça algum sentido para nós.
Para começar a falar da solidão, esse sentimento doído, vou citar Vinicius de Moraes - “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Entretanto, têm pessoas que optam pela solidão. Mas, será? Optar pela solidão, ninguém opta. Mesmo que estejam sós de alguém estarão muito próximos de si mesmos. O recolhimento é um encontro com si próprio para encontrar o outro. Pois, é pela descoberta de si mesmo (pela identidade) que as identificações são feitas. Todavia, só somos o que somos porque existe o outro. Em síntese, a construção de uma identidade, de um ego se dá pela relação.
Esse outro nos dá um nome, uma casa, nos ensina os costumes, nos instrui, coloca sentimentos em nossos corações, enfim, nos inserem na cultura. Esse grande Outro, como diria Lacan, é quem nos dá um lugar no mundo e na vida. Esse outro nos implanta um olhar, um olhar que vai dizer ‘quem sou eu’.
Se nós somos feitos de relações, então não nascemos para estar sós. A falta do outro implica no íntimo, em um enfraquecimento de alguém que nos afirme quem somos. Quando falta alguém, falta também quem diga: “Você é lindo”, “Você é interessante”, “Eu te amo”, “Senti sua falta”, “Quero sua compania”, “Você é valioso para mim”, etc. A solidão é a falta do olhar do outro. No fundo, o que queremos é ser admirado, é ser querido, é ser reconhecido, é ser amado.
A parceria e o companheirismo oferecem a oportunidade de ‘ser alguém para o outro’. Isto é, mais uma vez, marcar nossa existência. Da mesma maneira, o outro significa alguma coisa para nós que preenche, que amortece, que colore nosso vazio existencial.
A vida andava meio sem graça, comum e tristonha. Eis que surge a possibilidade de um novo amor. É o momento de enfeitar-se, perfumar-se, preparar-se para um olhar. Estamos à espera do palpitar do coração, cuja finalidade, é se mostrar para um indivíduo. Queremos falar, mas, sobretudo, ser ouvido. Queremos amar, sobretudo, ser amado. Quando dissemos “eu te amo”, desejamos, sobretudo, ser amado. João Bosco ilustra bem essa passagem com sua música – Desenho de giz – quando revela: “Aí diz o meu coração que prazer tem bater se ela não vai ouvir. Aí minha boca me diz que prazer tem sorrir, se ela não me sorrir também. Quem pode querer ser feliz, se não for por amor?” O que é o amor se não há trocas?
Enfim, a separação dos três assuntos em questão foi em vão. O que é a vida sem amor e o que é a vida com solidão? Para viver é preciso amor. Para amar é preciso o outro. E para ter o outro é preciso parceria. Triste é viver na solidão...
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