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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sobre o amor, a vida e a solidão: uma leitura psicanalítica, filosófica e poética


Aqui estou eu, sentada à frente do computador, escrevendo sobre o amor, sobre a vida e sobre a solidão. Assuntos intrigantes e cheios de poesia. Nessa viagem tentarei refletir um pouco sobre eles.
Começo com o amor, por ser para mim o sentimento mais cheio de vida, de brilho e de esperança. Como ser feliz sem ter a presença dele? (Ater-me-ei aqui no amor entre dois indivíduos). O amor é para mim a junção de vários outros sentimentos como o respeito, a dedicação, a admiração, o carinho, o companheirismo, a confiança, a sinceridade, a lealdade, a atenção e também o desejo sexual.
Para viver uma relação a dois, esses sentimentos precisam estar harmônicos, isto é, atento às próprias demandas, bem como às demandas do outro. Respeitar o espaço alheio e também não se perder no outro. Ainda, se colocar em um lugar de sujeito e também aceitar o parceiro (a) como tal. Ambos terão vontades, desejos, anseios, dúvidas que, presentes numa relação saudável, poderão fazer trocas.
A incompletude é inerente àquele que falta. Falta qualquer coisa ou um monte de coisas que nos impeça de sermos completos. No entanto, é a partir dessa falta que podemos desejar; desejar o que quiser, sempre conscientes que a totalidade é impossível. Assim, a expectativa nos poupa um pouco das frustrações. Tornamos mais doces no querer e mais compreensíveis com as perdas.
Lacan diz que: Amar é supor, minimamente, que o outro tenha algo para me dar que eu não tenho, mas que desejo e valorizo. Trocando em miúdos, se a mim falta alguma coisa, então eu amo o que está presente no outro. Por outro lado, no parceiro (a) também há falta. Ele é incompleto e cheio de desejo.  Nunca seremos completos um para o outro porque a nós tem muito a ser preenchido. Buscar no amor a completude (que é esperar que o outro me dê tudo que eu não tenho) é destinar-se ao fracasso. Mas, sempre temos expectativa de receber do outro. Caso contrário, não ficaríamos apaixonados.
Afinal, que sentimento é esse que “me queima por dentro” “que brota à flor da pele” “que me aperta o peito e me faz confessar... o que não tem vergonha, juízo, nem nunca terá”? Difícil responder essa pergunta, mas vou arriscar. Amar é ter do outro o que ele pode me dar, com seus limites, dores, medos, desprendimento, vontade. Então, amam-se quando recebemos um pouco do outro? Talvez sim. Bem como poder doar-se para o outro. O que não quer dizer apenas bons sentimentos, infelizmente. Mas, se é dado alguma coisa que para o outro falta, então é possível amar. Às vezes é por isso que amamos quem não é tão bonito, ou tão esbelto, ou tão carinhoso, mas certamente têm vários outros fatores que compensam as lacunas das impressões iniciais. Haverá um tanto de percepções que captamos do mundo do outro que irão rechear o nosso mundo vazio e incompleto, de acordo, é claro, com o que queremos, optamos, pretendemos, supomos, etc.
Pode-se pensar então, de uma maneira rude, que o amor é revelado por meio de interesses mútuos. Ambos doam o que podem e recebem o que querem. Está feito o pacto. A escolha do parceiro amoroso jamais é feita em vão e mais, inocente e inconscientemente. O que não impede que essa escolha seja feita com afeto, poesia e charme.
“Mas e a vida? E a vida o que é, diga lá meu irmão?” Estamos entregues ao mundo, completamente ingênuos e desprovidos de qualquer responsabilidade. Somos um ser miúdo que acaba de nascer. Daí, recebemos um nome e uma família que nos dirige atenção e nos proclama a vida. É necessário que tenha alguém que deposite em nós um olhar que autorize a existência. Que nos ensine valores, ajustamentos, disciplinas, sentimentos, comportamentos, enfim, que nos ensine a viver. Será que isso é aprendido? Ora, o que carregamos é repleto do que foi vivenciado, aprendido e percebido. Olhamos a vida com um olhar que foi ensinado, ou melhor, com o que foi aprendido. A maneira que percebemos a vida é única, de acordo com o que foi absorvido ao longo do caminho.
A vida é real. E somos nós que orientamos para uma direção de acordo com o que essa vida representa para cada um. Uma vida cujos aprendizados se deram por meio de dores e mágoas serão escolhas referidas nesses sentimentos. Já uma vida que teve como base o aprendizado através da serenidade e confiança, certamente as escolhas serão mais fáceis e suaves.
Impossível falar da vida sem abordar a morte. Aquela começa e concomitantemente inicia a morte. Um dia a mais de vida é um dia mais próximo da morte. A vida é a negação da morte. Em outras palavras, viver é não deixar de ter esperança, é não deixar de sonhar, é não deixar de perceber a beleza do mundo, é não deixar de permanecer com um brilho nos olhos.
Com mil afazeres da pós-modernidade, com as decepções que temos, com os desencontros que nos acometem, com as responsabilidades que assumimos e metas que devemos atingir, deixamos que o colorido da vida, acinzente. Não deixamos de viver por isso, mas nos aproximamos da escuridão da morte. A vida exige recriação, experimentação e motivação. Essas palavras trazem em si a própria essência da vida que: é um eterno recomeçar, são possibilidades, são expectativas e um distanciamento considerável de algum grau de desistência. Viver não permite que desistamos. Ao contrário, é sempre um convite para realizar. Diferente da morte que é a falta de esperança, de um “vir-a-ser”. A morte é a falta de vida. Ou, a morte é não-vida.
Mesmo que vivamos em caminhos tortuosos, cheios de dúvidas, medos e incertezas a vida, aí, está presente. O que digo é que nessas improbabilidades o acaso se faz presente. A incerteza nada mais é que a presença de qualquer possibilidade. Se há incertezas, então há vida porque há possibilidades. E são nessas infinitas possibilidades que precisamos fazer escolhas. Isso nem sempre é confortável, pois, escolher implica em abrir mão de outra oferta. Dizem os psicanalistas, é impossível ter tudo e ser todo. A iminência da escolha direciona ao descarte de outra possibilidade que resulta em desconforto e angústia. É impossível dizer se a escolha que fizemos foi a mais correta ou a mais adequada. Mais uma vez não há garantia nenhuma. Mas, quem disse que viver é garantido?
Já que não temos garantia nenhuma, nem certeza de nada, só nos resta viver. Ir atrás de sonhos, apanhar possibilidade, recomeçar, escolher o que nos parece mais agradável, se apropriar do que nos faz bem.  Se aparentemente as coisas não têm sentido nenhum, logo podemos aplacar a elas o sentido que bem quisermos. Inclusive, ouso a dizer que, viver é deixar que a vida ainda faça algum sentido para nós.
Para começar a falar da solidão, esse sentimento doído, vou citar Vinicius de Moraes - “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Entretanto, têm pessoas que optam pela solidão. Mas, será? Optar pela solidão, ninguém opta. Mesmo que estejam sós de alguém estarão muito próximos de si mesmos. O recolhimento é um encontro com si próprio para encontrar o outro. Pois, é pela descoberta de si mesmo (pela identidade) que as identificações são feitas. Todavia, só somos o que somos porque existe o outro. Em síntese, a construção de uma identidade, de um ego se dá pela relação.
Esse outro nos dá um nome, uma casa, nos ensina os costumes, nos instrui, coloca sentimentos em nossos corações, enfim, nos inserem na cultura. Esse grande Outro, como diria Lacan, é quem nos dá um lugar no mundo e na vida. Esse outro nos implanta um olhar, um olhar que vai dizer ‘quem sou eu’.
Se nós somos feitos de relações, então não nascemos para estar sós. A falta do outro implica no íntimo, em um enfraquecimento de alguém que nos afirme quem somos. Quando falta alguém, falta também quem diga: “Você é lindo”, “Você é interessante”, “Eu te amo”, “Senti sua falta”, “Quero sua compania”, “Você é valioso para mim”, etc. A solidão é a falta do olhar do outro. No fundo, o que queremos é ser admirado, é ser querido, é ser reconhecido, é ser amado.
A parceria e o companheirismo oferecem a oportunidade de ‘ser alguém para o outro’. Isto é, mais uma vez, marcar nossa existência. Da mesma maneira, o outro significa alguma coisa para nós que preenche, que amortece, que colore nosso vazio existencial.
A vida andava meio sem graça, comum e tristonha. Eis que surge a possibilidade de um novo amor. É o momento de enfeitar-se, perfumar-se, preparar-se para um olhar. Estamos à espera do palpitar do coração, cuja finalidade, é se mostrar para um indivíduo. Queremos falar, mas, sobretudo, ser ouvido. Queremos amar, sobretudo, ser amado. Quando dissemos “eu te amo”, desejamos, sobretudo, ser amado. João Bosco ilustra bem essa passagem com sua música – Desenho de giz – quando revela: “Aí diz o meu coração que prazer tem bater se ela não vai ouvir. Aí minha boca me diz que prazer tem sorrir, se ela não me sorrir também. Quem pode querer ser feliz, se não for por amor?” O que é o amor se não há trocas?
Enfim, a separação dos três assuntos em questão foi em vão. O que é a vida sem amor e o que é a vida com solidão? Para viver é preciso amor. Para amar é preciso o outro. E para ter o outro é preciso parceria. Triste é viver na solidão...










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