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segunda-feira, 23 de maio de 2011

O (im)possível encontro a dois

            Este tema da relação entre um homem e uma mulher inspiram muitos textos, livros e análises; a ver o famoso "Homens são de marte e mulheres são de vênus" de John Gray. São muitos os autores que arriscam uma opinião ou visão a respeito. Eu farei aqui uma leitura psicanalítica baseado no texto de Cristine Olivier, psicanalista francesa, intitulado "O impossível encontro".
            A autora aborda a relação de um homem e uma mulher, como casal, apoiado na vivência que ambos tiveram com sua mãe. Desta maneira, é possível inferir que há diferenças na maneira como esta vai lidar com o filho e com a filha. Será diferente também, o modo como os filhos irão estabelecer sua relação com o parceiro amoroso, isto é, o homem e a mulher buscam coisas diferentes. Olivier descreve a "demanda oral" da mulher e o "medo anal" do homem.
           Segundo Freud, quando o bebê nasce ele mantém com sua mãe uma relação quase simbiótica; ambos são quase uma pessoa só. O bebê é tudo para sua progenitora e esta é tudo o que ele precisa para sobreviver, sendo esta relação completa e perfeita. Cristine Olivier vai dizer que "amar é o desejo de uma única identidade levada ao extremo, é a irrupção violenta do fantasma primitivo de unidade com a Mãe". Passamos então a procurar alguém que vá nos completar como a mãe nos completou. Entretanto, o homem busca uma mulher que não o sufoque, enquanto ela quer um homem que a deseje. Isso acontece pelo medo que ele tem de novamente ter o seu desejo interrompido (pelo Complexo de Édipo); já a mulher teme não ser suficientemente amada e desejada. Assim, se instalam as demandas do amor adulto.
           A mulher procura um homem que lhe queira e deseje para que desse modo ela possa ser o objeto desejante dele, pois não foi assim para sua mãe. Com esta teve uma relação de amor, mas não de objeto de desejo. A mulher terá então, como demanda de amor, essa busca infindável daquilo que não teve: o desejo de sua mãe. Por conta disso ela quer ser amada e desejada. Já o homem teve uma relação de amor e desejo com sua mãe, pois ele tem o que ela deseja. Assim, o seu grande medo ronda por ser dependente, submisso e de não ter autonomia em relação a sua companheira. Em outras palavras, teme ocupar o mesmo lugar que muitas mulheres ocupam em nossa cultura. O homem receia também que a mulher o supere, que ocupe um lugar de autonomia, ou seja, teme do perigo que ela pode representar a ele. Prefere não demonstrar seus sentimentos, ser dominador, e "chefe da casa". A busca dele se resume em ser livre (para manter o controle) e seu medo transita pela impossibilidade de não conseguir o êxito (e a mulher ocupar este lugar).
            É impossível então que homens e mulheres possam se encontrar? Suas demandas de amor são opostas e por isso inviáveis e destinadas a solidão? Cristine Olivier vai nos mostrar que não, felizmente. Qual seria o possível encontro, então?
            Se a mulher busca o aconchego e o homem a liberdade, o que fazer para que isso não seja um impedimento, mas sim uma união? Uma possibilidade pode ser abrir mão da perfeição que ambos procuram. Cada um deve ver o outro não como seu obstáculo, mas como uma possibilidade para o gozo. Desta maneira, tanto o homem como a mulher sairão de sua posição de sujeito barrado e de não-desejo da mãe. A mulher poderá querer ser desejada, mas sem se submeter à norma do outro. E o homem poderá se desprender do medo de não ser autônomo e livre. Esta seria uma possibilidade para o amor dar certo. Conciliar as diferenças, permitir o amor do outro, interagirem entre si, superar as dificuldades que se tem com o outro e aceitar que a perfeição não existe. Esse pode ser um caminho para viver o amor.
           Olivier escreve: "É preciso conseguir reprimir suficientemente o negativo da nossa história e fantasiar o positivo de que necessitamos para alcançar a fusão ideal de corpos, a tão sonhada simbiose". Quem sabe assim se dê o possível encontro?

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