Total de visualizações de página

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O delírio na psicose

            O texto a seguir propõe discutir sobre a função do delírio para o sujeito psicótico. Porém, antes disso, abordaremos aqui o que é a psicose e como ela pode ser desencadeada nos indivíduos que apresentam tal estrutura psíquica.
            Como citei agora a pouco, a psicose trata-se de uma estrutura psíquica e como tal dispensa, para a psicanálise, vê-la como doença mental. Ainda é difícil para a sociedade aceitar o "louco" ou aquele que delira, exatamente porque ele diverge, destoa, desvia do que comumente chamamos de "normal". Não será absurdamente desconfortável vermos no louco àquilo de semelhante em nós mesmos? Fica aí uma pergunta.
Freud, em seu texto “Neurose e Psicose”, de 1923, formula a psicose como um distúrbio nas relações entre o ego e o mundo externo. Ele explica que, normalmente, o mundo externo governa o ego de duas maneiras: primeiramente, através de percepções desse mundo externo, que sempre está presente e se renova; e, em segundo lugar, por meio do armazenamento dessas percepções de acordo com o nosso mundo interno, que também é constituinte do ego.
Na ausência disso, a aceitação de novas percepções é recusada, e a visão do mundo externo pelo interno perde sua significação. O ego, então, cria um novo mundo externo e interno e esse novo mundo é construído de acordo com os impulsos desejosos do Id (instância psíquica que quer sempre ser realizada). Assim, o ego não reprime o impulso instintual a serviço da realidade. Ao contrário, a psicose se depara com a tarefa de conseguir outras percepções que correspondam à nova realidade. Isso geralmente se efetua por meio da alucinação. Freud (1923) completa que a psicose ocorre por alguma frustração muito séria de um desejo, uma frustração quase intolerável.
A psicose, de acordo com Quinet (2003), tem seu divisor de águas no Complexo de Édipo, na medida em que ele é a armadura significante mínima que condiciona o sujeito a entrar no mundo simbólico. Sem a castração, não há entrada no mundo simbólico; assim, como nos diz Lacan (2002), nada se ligará a nada, pois o sujeito jamais entrou no sistema de simbolização. Dito de outra forma, não haverá duplo sentido ou ambiguidade, mas sim literalidade. O simbólico será Real.
O Complexo de Édipo, segundo Quinet (2003), tem seu primeiro momento quando a criança é identificada pela mãe como o objeto de seu desejo. O bebê se torna o falo materno. O autor (2003), relendo Freud, vai se utilizar da equivalência bebê = falo. A mãe, nesse primeiro momento, é onipotente, pois só ela pode ou não satisfazer às necessidades do bebê, colocando a criança assujeitada a ela. Ela será, então, esse Outro absoluto, sem lei.
O segundo momento do Édipo, diz Quinet (2003), corresponde a uma entrada na simbolização. Isto é, a mãe, como ser falante e submetida à Lei simbólica, passa de um estatuto de objeto primordial ao de signo. A relação entre mãe e criança não será mais imediata, pois haverá uma mediação simbólica pela linguagem.
Nesse processo de simbolização da mãe, que ela não faz sozinha, será necessária a entrada de um terceiro que introduza a lei da interdição, da proibição, um “não” à integração dela com o bebê, um “não” à objetalização da criança pela mãe. Assim, surge a instância paterna como a metáfora do Pai - em outras palavras, o que no discurso da mãe representa o pai: o Nome-do-Pai. Isso será evocado no discurso da mãe e significará, para a criança, que o desejo dela se encontra em outro lugar, num terceiro lugar, pois ela também está submetida a uma lei (Quinet, 2003). “O Nome-do-Pai é o pai enquanto função simbólica que vem metaforizar o lugar de ausência da mãe; é o significante que faz a mãe ser simbolizada” (QUINET, 2003, p.11-12).
Essa função significante do Pai inscreve-se no Outro; esse Outro que antes era ocupado totalmente pela mãe. Enquanto que no primeiro momento do Édipo esse Outro é a mãe, com a entrada do Nome-do-Pai, esse Outro onipotente e absoluto será barrado, inaugurando-se, assim, o princípio da criança na ordem simbólica (Quinet, 2003).
Esse processo do Édipo ocorre quando a criança entra na ordem simbólica por um interceptor do desejo ilimitado da mãe: o significante Nome-do-Pai. No entanto, quando isso não ocorre, o sujeito é inscrito no campo comprometido da psicose. Quinet (2003), citando Lacan, denomina essa falha da lei paterna de foraclusão do Nome-do-Pai. Essa será a condição elementar da psicose, isto é, “a foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro e o fracasso da metáfora paterna” (QUINET, 2003, p.15). Foraclusão será entendido como o que está fora da ordem simbólica, em que o significante da Lei (Nome-do-Pai) está fora do circuito. Contudo, esse significante não deixa de existir, pois o que foi foracluído do simbólico retorna no real (Quinet, 2003).
Essa foraclusão da Lei paterna impede o sujeito de entrar na ordem simbólica, e o que não pôde ser simbolizado, colocado na cadeia do discurso, em palavras, retorna no real, isto é, nos delírios e alucinações. Reforça Oliveira (2006):

A ausência de um significante primordial (O Nome-do-Pai) provoca um grande furo na realidade do sujeito psicótico, de modo que ele cria o mundo das fantasias para preenchê-la. Emergem, então, os fenômenos alucinatórios: “o fenômeno alucinatório se dá pelo reaparecimento, no real, daquilo que não pôde ser simbolizado, ou então recusado pelo sujeito” (HERRAMANN apud OLIVEIRA, 2006. p.3).

Quinet (2003), abordando Freud, argumenta que, para o psicótico, o que foi abolido dentro, isto é, a castração, a inclusão do significante Nome-do-Pai e, portanto, sua entrada na cadeia significante é retornada do lado de fora. Dito de outra forma, ainda de acordo com o autor, o que é foracluído no simbólico retorna no real. “... na psicose um fragmento da realidade rejeitada retorna sem parar, para forçar a abertura na vida psíquica” (QUINET, 2003, p. 6).
Lacan (2002) diz que o psicótico é vigiado, espiado, observado, falam dele, olham-no, dão-lhe uma piscadela de olho, julgam-no, e tudo isso o invade. O sentido que o psicótico tem sobre as coisas não é natural, pois o simbólico é real.
Esse Outro terrível e gozador da psicose não está barrado, mas sim consistente; por carecer do significante da lei, da castração, é um Outro absoluto ao qual o psicótico está submetido (Quinet, 2003).
Diante de todas as atormentações que pode sofrer um psicótico, como então poderá viver sem ser acometido por tamanha desestruturação? Que saída ele encontra para atenuar sua desordem psíquica? Quinet (2003) diz que o que dá possibilidade ao sujeito de se organizar na realidade humana é poder significar o seu mundo. Isso ocorre por intermédio do mundo simbólico, do qual o psicótico está foracluído. Então, ele terá que se apropriar de “bengalas” imaginárias, por lhe faltar um quarto pé que lhe daria estabilidade. Essas “bengalas” imaginárias podem sustentar o sujeito até que ele não precise se deparar com o simbólico, já que lhe falta a metáfora paterna.
A sustentação do sujeito psicótico se mantém até o momento em que ele se depara com o Nome-do-Pai ou ocorre um encontro com Um - pai. Como aquele foi foracluído, o sujeito terá que encontrar outra maneira de se manter na realidade. É aí que os delírios têm uma função, pois,

[...] com a metáfora delirante, o sujeito busca reconstruir o sentido que se perdeu quando da dissolução imaginária do mundo. A busca por esse sentido e pela compreensão do mundo é o único meio pelo qual o sujeito pode reencontrar o sentido da vida, tendo acesso a uma significação (não fálica). Essa metáfora viria no lugar do fracasso da metáfora paterna, suprindo a carência do Nome-do-Pai de modo que as coisas readquirissem certa consistência, amenizando ou barrando o gozo do Outro” (QUINET apud OLIVEIRA, 2006, p.3).

Para complementar, Freud (1923) explica que o delírio funciona como um remendo no lugar de uma fenda que apareceu na relação do ego com o mundo externo; esse conflito com o mundo externo se manifesta, portanto, por delírios, como uma tentativa de cura ou de reconstrução.
Em algum momento na vida, todos nós nos deparamos com uma pergunta existencial do tipo: "Quem sou eu?", "De onde eu vim?", "O que quero da minha vida?", etc. E para responder a essas perguntas os neuróticos se apoiam em referências simbólicas, pólos organizadores que sustentam a vida psíquica. Já o psicótico, por não ter essa referência simbólica, essa significação,  vê-se na iminência de desencadear uma crise. Ou seja, um momento aguda de tormento e grande angústia. É muito comum que a primeira crise psicótica se dê na adolescência, pois é lá que as primeiras perguntas são feitas e os caminhos começam a ser trilhados. Ou então quando o adulto descobre que terá um filho ou quando sua carreira profissional começa ascender. Enfim, é comum que uma crise psicótica apareça em um momento crucial, marcante ou significativo na vida do sujeito.
A lei simbólica que organiza, que orienta e que serve de baliza para os neuróticos e que falta nos psicóticos, auxilia os sujeitos a responderem às perguntas difíceis que causam angústia ou então às situações que os obrigam a assumir um lugar na vida.
Apoiando-se do texto "A escuta do delírio na clínica da Psicose" de Rosane Ramalho (2003) ela diz que após um desencadeamento de um surto psicótico e após a alucinação, é comum que o sujeito comece a delirar. Isso porque ele tenta desesperadamente achar uma resposta, um significado para as questões; já que o seu mundo psíquico encontra-se tão desorganizado e fragmentado. 
O delírio é a possibilidade do psicótico sair de sua crise. É onde ele pode obter uma significação subjetiva para si. "O delírio é a construção de uma narrativa, de um texto para si, homólogo ao romance que cada um constrói para si ou o seu mito individual." (Ramalho, 2003)
Poder escutar o louco no que ele trás no seu delírio é deixar que ele monte uma narrativa viável ou o chamado delírio de qualidade. Deixá-lo jogado dentro dos muros do manicômio é calar o delírio do louco que pode tirá-lo de sua crise e do seu sofrimento. 
Deixar que o psicótico fale em seu delírio e escutar sua narrativa é não temer em escutarmos a nós mesmos. É poder se deparar com o que aparece de estranho no outro e que pode ser para nós tão ameaçador e semelhante.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

"Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, sem querer." (Freud)

terça-feira, 21 de junho de 2011

"Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos." Freud

terça-feira, 7 de junho de 2011

A relação mãe-bebê

            Existem teorias psicológicas que atribuem a função materna um papel importante na constituição do sujeito. São teorias de Winnicott, Melanie Klein, Spitz, etc. que reforçam a ideia que é preciso desempenhar bem essa função. Quando digo 'função materna' não é necessariamente a mãe biológica, mas alguém que assuma a relação de afeto, o olhar e os cuidados com o bebê.
             Podemos citar desde os cuidados básicos com o lactante como alimentar, aquecer no frio, banhar, limpar, mas não apenas isso. É necessário que se passe ao bebê a sensação de aconchego, conforto, afeto, carinho e amor. O toque ou contato (que é também com tato) é mais que pegar; é, sobretudo, delimitar um corpo e erogeinizá-lo. Tocar o neném em seu braço, rosto, cabelo é, acima de tudo, mostrar-lhe sua existência no mundo como um ser que possui um corpo.
             O 'olhar' para o bebê é o que demarca sua importância para a família e o lugar que ele ocupa nela. Refiro-me ao olhar que trasborda o amor, a estima, a alegria do descobrimento do mundo pela criança; é o que transmite segurança e auto-confiança para ela. É um olhar que mostra a dedicação, o apoio e o valor dessa criança para seus responsáveis, por fim.
             Há estudos feitos em hospitais com bebês pré-maturos, internados em UTI, que comprovam que eles se recuperam mais rápido cuja presença da mãe é regular, provida com toque, carinho e conversas com seu filho. Existem, inclusive, psicólogos que trabalham em UTI neonatal que incentivam e reforçam a importância dessa relação mãe-bebê nesse período difícil para ambos.
             O que pode parecer inútil e descabido como conversar com um recém-nascido, ou dizer a ele que possui um corpo ou mesmo colocá-lo no colo para deixar transparecer o aconchego, é sem dúvida, mostrá-lo que na relação com sua mãe há amor. O que importa é fazê-lo sentir o afeto, já que o corpo de um bebê há tantas sensações.
             Outro fato que vale ressaltar é qual foi o imaginário dessa criança para os pais, ou em outras palavras, o que esperavam dele antes mesmo de nascer. Foi planejado? Foi esperado? Foi amado desde o período em que estava na barriga da mãe? Isso vai delimitar o lugar que o bebê ocupa na família, bem como o valor que tem para ela.
             Enfim, não basta ser mãe cuidadora, porque isso qualquer pessoa pode fazer. O que tem valor são todos os ingredientes que já citamos anteriormente como o 'olhar', o afeto, o carinho, o aconchego, o toque, a presença, a segurança, etc. Isso sim é o que faz a diferença na relação mãe-bebê.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brincar é coisa séria

            Na psicologia muitos são os teóricos que compreenderam a importância do brincar para o desenvolvimento emocional infantil. Freud foi o primeiro a dedicar seus estudos às crianças, com o famoso caso do pequeno "Hans"; também reconheceu o valor da vivência infantil e suas consequências na vida adulta. Depois de Freud, duas vertentes psicanalíticas surgiram com o intuito de sistematizar e adaptar a teoria com uma prática terapêutica infantil; foram Anna Freud (filha de Freud) que lidava com questões de cunho mais pedagógico e Melanie Klein que valorizava o brinquedo como elemento de análise e interpretação dos sintomas nas crianças.
             Após o surgimento da psicoterapia infantil com Melanie Klein e Anna Freud, D. W. Winnicott, médico pediatra, foi mais um integrante da teoria psicanalítica. Trabalhou por quarenta anos em um hospital infantil e escreveu suas teorias baseadas na relação mãe-bebê e também na importância do brincar para o desenvolvimento da criança. A psicoterapia infantil centra seus trabalhos nas brincadeiras, o que possibilita a criança a expressão de seus sentimentos e angústias, bem como reorganizar suas vivências nos mais diferentes níveis. 
              Brincar para a criança é algo essencial para o seu desenvolvimento físico, mental e social e lhe permite experimentar o seu mundo descobrindo mais sobre ele. Através das brincadeiras a criança pode entender e elaborar melhor seus sentimentos acumulados de tensão, insegurança, frustração, agressividade, medo e confusão (Rocha, 1999). A brincadeira é utilizada pela criança como forma de linguagem, pois dessa maneira ela se expressa de uma maneira que não saberia fazer através da fala. Desse modo, o recurso usado pelo terapeuta para viabilizar a comunicação com seus pacientes pequenos é o brinquedo. O profissional deve ter abertura suficiente para brincar com a criança, desde que tenha um objetivo terapêutico.
             A ludoterapia é uma forma de intervenção psicológica com crianças que se baseia na brincadeira como meio de auto-expressão. Da mesma maneira que o adulto expõe seus problemas na terapia, a criança faz isso na ludoterapia, brincando. O brincar, dessa maneira, constitui-se em um simbolismo que substitui as palavras e torna, por si só, um gerador de sentido. Com o brinquedo o infante sai de um lugar passivo para uma atividade que facilita a sua compreensão no mundo. A ludoterapia permite à criança ser ela mesma, brincar como quiser sentindo-se mais livre e segura para expressar o que passa consigo.
              A personalidade das crianças evolui com a ajuda das brincadeiras elaboradas por elas mesmas ou por intermédio dos adultos. É possível perceber que a criança pequena brinca sozinha ou com sua mãe, isso pelo fato de ser egocêntrica, isto é, centrada em seu próprio Eu; neste momento ela ainda não é capaz de considerar o ponto de vista do outro. A medida que vai desenvolvendo, já tem interesse nas brincadeiras em grupo o que a faz experimentar diferentes papéis sociais. A partir daí, a criança já permite que as outras tenham uma existência independente dela e assim, inicia-se suas relações. A brincadeira é a prova evidente e constante da capacidade criadora (Winnicott, 1975).
              Brincar para uma criança é mais importante e saudável que muitos adultos pensam. Ela é capaz de fazer isso com qualquer objeto, sendo brinquedo ou não. Portanto, quando chega ao consultório de um terapeuta um infante que não brinca pode-se concluir que o caso é bastante grave. Brincar é coisa séria e não brincar não é brincadeira.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

           Ontem anoite tive a oportunidade de assistir o programa "A Liga", exibido pela Band, que abordou sobre o tema da Liberdade Individual. Dentro desse tema exploraram sobre os seguintes sub-temas: União homo-afetiva; Adoção de filhos por casais homossexuais; Legalização da maconha e a Legalização do aborto.O programa tem a presença de quatro jornalistas (um deles é o Rafinha do CQC) que percorrem o Brasil à procura de pessoas e estórias que servem de exemplo para o tema do dia.
           Neste programa, recolheram depoimentos de pessoas nas praias, em bares e também de médicos, especialistas e políticos. Dentre os depoimentos de algumas pessoas, eu confesso que fiquei perplexa com o que ouvi. São falas baseadas em frases que escutamos por aí, e que na minha opinião, não são baseadas em nada. Ou melhor, baseadas no que o povo ouve do povo, ou seja, argumentos retrógados, sem fundamento, sem informação, e o pior, recheados de preconceito e visão limitada que não condiz com a nossa atualidade.
            Ouvi coisas do tipo: "Mas se um casal de gay adotar uma criança quem vai ser o pai e quem vai ser a mãe?...a criança vai ficar confusa". Ora!!! Se um casal de gays adotar um filho, este terá DOIS PAIS e não um pai e uma mãe! Que coisa absurda de se ouvir em plena rede nacional! Quando há um casal de gays, por exemplo, eles não querem ser mulheres, e não são. Eles são homens que desejam outros homens. O mesmo ocorre com um casal de mulheres. Ambas são mulheres, e se adotarem um filho as duas serão mães da criança.
              Mas aí vem o famoso fragmento que diz: "Mas a criança precisa de ter referência de homem e mulher na sua criação e em caso de casais homossexuais isso vai faltar". Meu Deus! É verdade que uma criança precisa ter referências do que é um homem e do que é uma mulher para o seu desenvolvimento, isso é muito importante. Mas essa vivência não se dá somente em casa, a criança se relaciona com o tio, o avô, o primo, o dono da padaria, com o pai do seu coleguinha, enfim, as referências são múltiplas. Freud diz que é necessário inserir a Lei na relação edipiana. Essa lei é transmitida, sobretudo, pelo pai, mas na verdade ela pode ser inserida por qualquer um. Numa relação com os filhos, um do casal pode exercer o papel da Lei e fazer o corte necessário entre a criança e o que assume a função materna. Percebam, eu falei função materna e não Mãe...essa é a grande diferença.
               Outra fala que me deixou atônita foi de um brasileiro que disse: "Se permitirmos a união de homossexuais em todo lugar o que vou dizer para meu filho sobre dois homens se beijando na frente dele?" Meu caro amigo, você vai dizer ao seu filho que são dois homens se beijando. Que no mundo todo tem homem que gosta de beijar mulheres, mas também têm homens que gostam de beijar homens. E que a vida é assim. Quanto mais casais do mesmo sexo forem vistos se beijando, mais familiarizado nós vamos ficando com o fato, mas para isso acontecer é preciso começar.
               Outros depoimentos sobre a legalização do aborto também me assustaram, tanto positiva quanto negativamente. As falas são àquelas que já conhecemos; têm pessoas que absorvem a ideia de que abortar é simplesmente matar criancinhas e que isso é um crime imperdoável. As pessoas esquecem de refletir sobre a decisão da mulher em ter um filho ou não; esquecem das condições precárias e desumanas que elas abortam no Brasil; esquecem também de falar da culpa que as mães podem ter por cometer um aborto em um país onde isso é visto como crime, ademais esquecem que milhões de mulheres morrem porque abortam de qualquer jeito, em qualquer lugar e penetram vários objetos para poder matar o feto. As pessoas que aprovam a legalização do aborto defendem a ideia de que a mulher possa ter a decisão de querer ou não ter um filho. E que isso seja feito de maneira adequada, em lugar próprio e do modo certo...sem culpa ou medo de serem pegas porque o Estado não as apóia. Além disso, a defesa é também para que haja um planejamento familiar, formação e informação às mulheres e jovens do Brasil sobre os métodos contraceptivos, sobre os seus direitos, etc.
               Mas um depoimento que me deixou pasma, positivamente, foi uma ONG de mulheres católicas que são a favor da legalização do aborto. É isso mesmo. Elas criaram essa instituição porque reconheceram que o argumento da Igreja perante a sexualidade era atrasado e não condizia com a realidade. Fantástico isso! Perceberam que atualmente a condição das mulheres era outra e que podiam ter a escolha de fazer um aborto, se assim fosse conveniente. Surpreendente como têm pessoas que mesmo religiosas conseguem enxergar além do que é imposto pela grande instituição que é a Igreja católica.
               Finalmente, a legalização da maconha. Não podemos tapar o sol com a peneira e esquecer que há, no Brasil, milhares de usuários de maconha. São nossos amigos, companheiros, familiares e filhos que fumam um baseado quase que diariamente, se não todos os dias. É uma planta com poder psicoativo e que causa uma dependência psicológica. Têm como efeitos a sonolência, ou um estado de relaxamento, o apaziguamento da ansiedade, a abertura do apetite e até depressão em usuários veteranos, etc. Mas também tem efeitos medicinais como em casos de anorexia (onde o indivíduo evita comer), em casos de portadores de HIV que percebem que sua ansiedade é diminuída por causa do uso da maconha e com isso a carga viral pode ser equilibrada, sem aumentos.
             Mas o que eu acho mais importante com a legalização da maconha é que o uso poderá ser liberado para os usuários sem que isso seja uma ofensa a sociedade e ao Estado. Os compradores poderão adquirir a erva legalmente sem o acesso aos traficantes; poderão comprar em cafeterias, bares, de uma forma mais digna. E se "seu filho" ver uma pessoa fumando um baseado na rua, assim como vê tomando uma cerveja ou fumando um cigarro o argumento poderá ser o mesmo: " Existem pessoas que gostam de fumar um cigarro de maconha e isso aqui no Brasil é permitido". As informações dadas aos nosso pequeninos devem ser verdadeiras, claras e sem falso moralismo.
             Bem, o que pude concluir com o programa de ontem - A Liga - é que é necessário ainda muita informação, formação e educação antes desses temas irem ao plenário. É preciso uma discussão mundial para a legalização da maconha. É preciso abonar o preconceito podre que cerca a cabeça de muitos brasileiros. A falta de informação, interesse, questionamento e reflexão ainda são bastante perceptíveis.
             O ex Big Brother Jean, que hoje é deputado, apareceu dando sua visão sobre esses assuntos. É um homem muito interessante do ponto de vista profissional. Com argumentos sólidos, visão ampla, inteligente. Adorei ouvi-lo, embora eu não goste nenhum pouco de reality shows, eu tenho que reconhecer que o Jean é um ex Big Brother que pensa e que está antenado com as demandas do mundo.
              Não é de se estranhar que os países desenvolvidos são os que mais têm a legalização do aborto, da maconha e da união homo-afetiva. O próprio nome já diz (desenvolvido) e para nós, brasileiros, chegarmos lá é preciso ainda uma boa estrada.